Sol na cabeça

Arrifana

Enquanto os pés secos do pó e da areia esfregam os lençóis à procura do canto inexplorado da cama, o sono é interrompido por um breve momento de olho piscado que se pergunta onde está. Ao ouvir o som das ondas a bater na costa, lembro-me que estou em porto seguro.

O acordar é leve, sem máquinas a fazer barulhos modernos indesejados; os pés enfiam-se nos mesmos chinelos que me dão dois passos até à porta da mini-casa de onde a costa vicentina me diz bom dia como quem me estende pão fresco. Enfio os óculos escuros nos olhos ainda entreabertos e sorrio à vida. Tenho trinta anos há dez dias; a liberdade de que me falavam parece, mesmo, existir.

Fico à sombra porque a pele pede descanso, vou ao mercado à hora do pico do sol comprar fruta que sabe a fruta, digo que sim a almoços prolongados que não me deixam dar mergulhos, bebo vinho correndo o risco da sesta que me come o tempo, como os doces que me apetece na mesma proporção das horas de exercício londrino que não me vão apetecer. Vou à praia ao fim do dia porque sabe tão bem, começo o dia a pensar que vou a uma praia nova mas acabo-o na mesma praia de sempre – e não faz mal nenhum.

Não sei o que vamos almoçar nem jantar. Os ingredientes de amanhã arranjam-se mais logo, ainda que o frigorífico esteja mais cheio ao fim de um dia do que o meu londrino alguma vez esteve no quotidiano. O único plano que tenho e sigo é o de encontrar transporte para Lisboa na véspera do avião que me levará de regresso a Londres – com menos quinze graus que aqui, encharcada. Transporte esse reservado no café de esplanada estampada a super bocks, a empregada de sotaque algarvio a vender-nos simpatia em troca de sessenta cêntimos por um café que não se encontra em países ricos, a ventoinha a não dar conta do bafo quente de quase-Agosto, os alemães sentados cá fora, enrugados pela alegria de mandar a ordem à merda e viver enfim à beira-mar.

Não fazia isto há demasiado tempo porque contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que, durante nove anos, passei duas semanas seguidas na minha terra.

Mas principalmente não fazia isto há demasiado tempo porque a cabeça não me deixava. Um dia destes conto-vos porquê, num outro palco. Que já vão sendo horas.

5 Respostas

  1. Uma delícia de ler, Débora! Melhor até que baguete quentinha entregue na mão de manhã – e com manteiga! Obrigada por me levar praí por alguns minutos. Fico muito feliz que tenha voltado a escrever por essas bandas. Beijo grande!

    Ana

  2. Que felicidade imensa ler o teu regresso e ver- te novamente diletante! Enfim tenho- te de novo de volta e repleta de tudo o que teimava a ficar para trás! Benvida!

  3. Carago, a Débita voltou novamente e em grande forma! Ó pá, contigo não precisamos d “A côr do horto gráfico”…

  4. Boa! 🙂

  5. Ainda não consgui dizer o que me ficou na Alma……. Desculpa Tano….

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: