A sinopse de “Perfect Sense” fez-me querer vê-lo sozinha, num sábado à noite, em Picadilly Circus. O empregado vê-me entretida com as minhas pipocas, adivinha a minha nacionalidade ao fim de algumas tentativas e por fim pergunta-me se gostava de dançar samba com ele. Entrei na sala. (Uma das mais antigas de Inglaterra.)
Resumindo, o filme fala sobre a perda dos sentidos. Um a um. A epidemia é ficcional, mas revela claramente a natureza do ser humano. Prioridades revêem-se e tudo se relativiza – porque o mundo pode estar prestes a acabar.
O que intriga, no entanto, é que seja necessária essa iminência para puxar a acção à superfície. Teimamos em dizer que vamos mudar, fazer melhor, seguir o exemplo de Steve Jobs e aproveitar cada dia porque o amanhã se desconhece. O mesmo costuma acontecer no cinema: a mensagem marca e pede mudança, mas à saída o telemóvel toca e o serão continua como planeado. A mudança fica para depois, até que novas homenagens apelem à nossa sensibilidade.
Saí do cinema com os cinco sentidos apuradíssimos – e eis que dei de caras com Picadilly. Vozes embriagadas, música alta em descapotável, telemóveis sobreutilizam-se, luzes encandeiam, gargalhadas atropelam-se. Gente que quase julgo pela futilidade e pela inconsciência de quão essenciais são os nossos sentidos. Mas depois apercebo-me: estou perante gente em modo carpe diem. E é isso que o filme ensina. É assim que deve ser.
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mudo hoje. juro.
“Quereria que o condicional não nos condicionasse, mas que nos tornasse sóbrios, que não nos submergisse num passado impossível nem nos exilasse para um futuro improvável.”
Dimíter Ánguelov