Regressei a Londres há pouco mais de uma semana. Tenho um novo lar e moro novamente com três pessoas que não conheço. Gosto da sensação. (Essa descrição fica para depois.)
O que fica para agora é que fui até Tooting Broadway, no lado oposto da linha de metro onde vivo. Na minha percepção ingenuamente suíça-e-ou-portuguesa achei que levaria não mais de meia hora a chegar lá, mas o itinerário levou mais de uma hora. Li freneticamete o José Rodrigues dos Santos: apetece-me ler outra coisa mas não gosto de deixar livros a meio.
Chego então a casa da Beki e da Lou, ou Rebecca e Louise, uma do norte e outra do sul de Inglaterra. Supostamente deveria morar com elas neste momento, mas as circunstâncias alteraram os planos. Fui à housewarming party delas, que também foi a festa de aniversário da Lou. Já tinha saudades destas festas em que a bebida é prioritária sobre a comida. Tinha vinho, cocktails e cervejas de todo o tipo à disposição, e para comer apenas crisps e quatro variedades de dips. Nicht schlecht, que até agora estou cheia.
O que gostei mais foi de estar outra vez perto dos ingleses que se tornaram meus amigos ao longo do último ano. Sofremos na mesma proporção em busca de reportagens e inspiração para escrever sobre doenças e descobertas científicas. Pusemo-nos a par de “job status” e eis que as três colegas que têm doutoramento estão safas: uma em Cambridge, de saco-cama às costas para aguentar aquela festa; outra é médica e fez senão bem em desistir do jornalismo; outra tem o emprego de dois dias por semana que lhe paga a renda e curiosamente está à espera de ser chamada para a mesma entrevista de trabalho que eu. Se Londres é grande, a verdade é que os science journalists andam atrás do mesmo. Ajudámo-nos durante nove meses e por isso não nos devoramos em guerras – e isso é muito gratificante.
Como que por acaso reconheço a cara da Ruth, uma das melhoras amigas da Beki. Não é jornalista como a maioria, mas sim professora. Todos me invejam o bronze, e ela grita: “Eu estive na fucking Índia este verão e sou a mais pálida dos pálidos!”. Conta-me que foi sozinha por um mês, primeiro scared to hell e depois gradualmente habituada. Partilhou a cama com gente desconhecida a cada cinco noites e, apesar de por vezes gritar em desespero por um país organizado, a verdade é que uma vez de volta à Inglaterra gostava de ainda estar naquele campo quente.
Quando me desvio para top up o meu copo de vinho branco chileno, percebo que a Ruth foi substituída pela Kara, uma australiana que tinha vindo parar àquela casa por acaso: veio visitar o Joe, que partilhou casa com a Beki uns meses antes.
É arquitecta, como a minha irmã. Está a estudar em Aarhus, na Dinamarca, como a minha amiga Sara. E é de Perth, como o meu amigo Josh de Genebra.
“O mundo é pequeno,” disse a sorrir enquanto procurava no frigorífico a minha garrafa de vinho chileno. Quando regressei ao convívio, a Kara tinha sido substituída pela Fareha, a minha amiga do Bangladesh.
Fez-se tarde; era hora de apanhar o último tube de regresso a north London. Fui com a Lorna, minha colega de curso, médica, que vive em Old Street. No metro veio à conversa a América Latina, até que um pré-trintão solitário se junta à conversa. Era o Carlos, britânico de pais espanhóis. Vinha com um copo de whiskey roubado de um pub qualquer, e perguntou se podia ser orientado por uma das duas até East London. Saiu com a Lorna umas paragens antes da minha.
E eu fui a ler o Rodrigues dos Santos até à minha nova casa, escondendo o título do livro – “Fúria Divina” – dos restantes passageiros de aparência muçulmana.
Londres, tive saudades tuas.
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Londres,de certeza,também teve saudades tuas!
meu deus, o orgulho que tenho da minha TANOCA que chegou tao tímida em leipzig, logo depois de ter saído de lisboa pela primeira vez na vida sozinha para o estrangeiro.
– passou por bona, bruxelas, londres, genebra (esqueci algum lugar???), e tem amigos no/dos quatro cantos do mundo.
entretanto esta mesma TANOCA – sempre minha…
i love you so, my dear, take care!!! und mach so weiter.
cheia de saudades: julia
As crianças, sabe-se, muito brevemente deixarão de o ser. O tempo, na criança, é longo. No adulto é muito curto. Quando voltarem a olhar, já lá não estão. Não esqueçam.