Antes que todas estas aventuras me transformem a memória em teoria da relatividade, subestimando-a, tento descrever as minhas primeiras horas em Genebra. Lembrou-me a aterragem em Leipzig. A postura, porém, tão diferente. Já lá vão cinco anos.
A grande semelhança foi o chegar em noite cerrada. Noite quente e escura, noite de ansiedade acumulada. Noite de uma mala já meio-cheia, que com o passar do tempo aprendi que não preciso de trazer metade das coisas que achava que sim. Uma noite em que, como há muito não acontecia, cheguei a um lugar onde não conhecia ninguém, onde as palavras para comprar um bilhete não me saíam em francês – e tinha receio, mas já não pavor, de não dar com o caminho para casa.
Uma casa que era minha por direito, mas que não conhecia. Aluguei pela internet, falando por Skype com a dona do quarto. (Em Leipzig, tive a Clara.)
Cheguei à minha estação em Carouge – que o orçamento obriga a fugir de Genebra – e subi a colina como as indicações do email me mandaram. Claro que me desorientei, ou não fosse eu. Aproxima-se um casal e eu peço ajuda. Ele baixinho e sorridente, ela com traços asiáticos. Olham o meu mapa e caminham comigo até ao meu prédio, só depois indo para o deles, que ficava para trás. A isto se chama uma boa impressão dos suíços. E como eu sou boa a generalizar, continuo a perguntar-me por que raio os suíços e os belgas falam tão bem inglês, e os franceses simplesmente não se dão ao trabalho?
Cheguei ao meu prédio, mas não tenho chave. Como as três raparigas da minha casa estão de férias, a chave ficou com a vizinha de cima. Mas como a vizinha de cima foi sair à noite, que era sábado, a chave passou para a vizinha do lado. Telefonei como combinado, desvalorizando o relógio que marcava uma da manhã. Do outro lado da linha diz-me um sotaque muitíssimo norte-americano: “já estou a dormir, mas deixei a chave num envelope na caixa do correio.” Lá estava. Dizia “Debora – summer sublet”.
Cheguei à minha casa e perdi a conta aos passos que dei. Três jovens estudantes vivem ali, mas a casa tem espaço para umas duzentas pessoas. É um apartamento numa residência universitária. Tem três frigoríficos. Por que está tudo tão mal distribuído neste mundo? Vim a saber que pago a renda mais baixa da maioria dos estagiários da OMS, que para todos os efeitos moro nos subúrbios. Tenho de ir ver a supraqualidade das instalações em que os outros vivem.
Cheguei ao meu quarto. Não obstante a vontade de aterrar na cama, estava a cama por fazer. Recomeçara a rotina de estar por conta própria.
***
Na manhã seguinte chovia a cântaros; achei que estava em Londres. Mas o pior foi não ter pequeno-almoço. Comi, em duas colheradas, a única coisa que estava no frigorífico: um pacote de hotel de geleia de morango.
Apanhei o tram para a estação de Cornavin e encontrei-me com três novos colegas, graças à mailing list dos estagiários da OMS. Um é egípcio, outra argentina, outra coreana. Almoçamos e falamos do que temos em comum: interesse pelas diferenças culturais. Em Leipzig, teria reparado no primeiro instante que estavam quatro continentes à mesa. A histeria transformou-se em sorriso, o que é uma pena.
Quando regresso a casa bato à porta da vizinha de cima, que se ofereceu para me mostrar a cave com as (inúmeras) máquinas de lavar roupa. Oferece-me chá e sentamo-nos à mesa. É muito bonita e transpira simpatia. Conta-me que é da Algéria, mas cresceu em Palma de Maiorca. Esteve em França uns tempos até vir para Genebra estudar farmácia.
Ouvimos barulho na rua, são duas amigas a conversar. Acabam por subir e sentar-se à mesa connosco. Uma é canadiana, como de resto a maioria dos jovens que vêm para cá por uns tempos; a outra é californiana de sangue alemão. Fala-se de tudo um pouco, mistura-se inglês com francês, até que um amigo bate à porta. A origem é… portuguesa. Em palavras perspicazes conta histórias do seu trabalho ao serviço dos Estados Unidos, diz que Washington é um lugar estranho onde à noite se vê o lado selvagem dos grandes crânios da capital. Está de férias curtas pela Europa; costuma visitar ex-namoradas, com quem nunca se zangou. “Simplesmente acabava sempre que tinha de mudar de país”. Nesse dia viera de França, onde uma amiga da irmã lhe pediu para levar uma caixa para os Estados Unidos. Trouxe, de sobrolho franzido. Mas antes de correr o risco de levar droga na bagagem, abre o pacote – e vê brinquedos vários de uma sex shop.
Rimo-nos, serve-se bolo e mais chá à mesa. Prolongou-se o fim de tarde de domingo chuvoso, até ser tempo de regressar ao andar de baixo.
Desfez-se o mito suíço de que só se visitam pessoas com hora marcada.
Só que ninguém naquela casa era suíço.
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